Velas e
mastro são miscelânea de contornos indefinidos.
À beira da areia quente, o emaranhado complexo a
custo deixa entrever o náufrago, renascido dentre as ruínas em que o vendaval
transformou o barco antes donairoso. Pouco a pouco ressurge do caos e procura a
terra firme, sobre a qual se atira como porto de salvação.
Fora
longa a aventura, a luta contra os elementos desfavoráveis daquele velejar
repleto de incidentes dramáticos.
Na
praia, o sono de cansaço. No sono, o sonho do guerreiro, retemperador das
energias perdidas a combater a fúria dos elementos. Estendido sobre a areia, de
bruços e mastigando alguns grãos de sílica, pernas e braços desencontrados, é a
imagem de alguém que finalmente encontra o descanso, descontraído e bom. Pela
mente perpassam‑lhe recordações de experiências anteriores, todas
convergindo para os mais estranhos episódios vividos de autêntico amor.
E o amor
não será sempre autêntico? A entrega e a troca não serão um favor divino que
engrandece as simples almas mortais? Haverá amor que não tenha no espírito o apex e no corpo apenas o actor que o
compartilha e desfruta? Não será apenas um carnaval do espírito e uma
espiritualização da carne?
Ao
embarcar, sabia que, naquele veleiro frágil, cavalgaria apenas um verso sem
rima e ia à procura do poema que merecia encontrar como objectivo da viagem. O
barco tosco não passava dum madeiro à deriva na vida, magoada e palpitante mas
sua, a única que era então capaz de viver.
A
solidão cercava-o, os horizontes eram nus e o céu abatia-se sem altura nem
profundidade, como se a redoma do seu território se confinasse ao espaço
mínimo, achatado e comprimido.
Depois
da procela o ar cruzado por gestos primaveris de amor bonançoso: pardais
trepidando asas; pombos impantes de arrulhar convidativo e terno, colibris em
acrobática festa nupcial; garavetos e ramos transportados para a construção de
ninhos tantos; gritos afirmativos de andorinhas recém‑chegadas; o voltear
suave e silencioso das rapinas vigiando ao mesmo tempo as crias e as presas
apetecidas, e o homem, só, exausto e excluído da natureza, apenas sonhando o
que os outros seres viviam com a feliz liberdade que lhes emprestavam as asas,
Ícaros da lenda a sobrevoar a realidade terráquea dos humanos.
Os
passos femininos mal deixam vestígios na areia suave que a separa dele. Suave é
também a primeira carícia, toque na matéria quase inerte sobre o solo frio e
humedecido. Mas o calor vem chegando: as mãos, a boca e os seios são portadores
de mensagens quentes, amplexo apetecido e inesperado. Sequioso e dependente,
aceita a oferta que lhe é proposta.
O amor
não existe, apenas acontece, é dádiva recebida e retribuída, bocas loucas que
se mordem, em cada corpo um vulcão vertendo lava das entranhas ebulientes,
expoente máximo da comunicação.
Já não
há razão para ciúme, a vida é toda amor, harmonia da natureza e do homem que
dela faz parte.
A poesia
vivida não precisa de versos face ao sublime instante que ali deixa traços
indeléveis. Dispersos sejam eles. A grandeza do poema afirma-se por si própria
e, como sinal, ficam apenas as marcas turbulentas na areia, transcrição
material do diálogo ardente.
Mas o deus Oceano não está de acordo. Tinha de alimentar a energia das
suas oscilações cósmicas: os sinais que ficaram, apagou‑os o mar; todos os
seres amaram, mas o amor não ficou!