Fui hoje investido Cavaleiro do Vento.
Como em todos os ritos iniciáticos, a imagética
sobrepunha-se à realidade, e eu, sujeito‑objecto de toda aquela
parafernália, sentia-me pequeno demais para enfrentar a grandeza da passagem
que se desenrolava perante os olhos da minha alma assustada.
Era eu, no entanto, o arguido,
sujeito-mesmo-que-não-quisesse de todo o cerimonial que ia desenrolar-se de
acordo com as regras estritas que o Grão‑Mestre
do Vendaval havia estabelecido e consagrado para circunstâncias
semelhantes: capacidade de transformar incidentes em acidentes, passar de
simples autor de neblinas e brisas a verdadeiro fautor de furacões e
tempestades.
Para isso era necessário, com os meus meios
próprios e precários, vencer o jacto tempestuoso brotando da gruta no cimo da
montanha. A violência do ar nocturno varria a crista granítica onde a custo me
equilibrava contra uma força sobre‑humana, de natureza cósmica, que era
necessário vencer.
Ali passei horas de confronto, os tornozelos
doridos pelo exagero da flexão, o corpo angulado e as mãos geladas a nadar num
mar revolto de nuvens assassinas. A postura era de luta, inclinada e quase
rasa, em posição de esquiador, visto de longe e de perfil mais parecia uma
mímica de Jacques Tati.
Mas a noite devolve à alma das pessoas os níveis
da sua autenticidade. Há eventos só passíveis de ocorrer na ausência do astro‑rei
e ainda mais prováveis e conseguidos se banhados pela luz que a lua‑cheia
tão plenamente reflecte. Foi difícil, foi doloroso e demorado, mas acabei por vencer!
--"Agora vai e utiliza a tua nova força na
destruição - assim bramia o Mestre - transforma todas as culturas em desertos e
as cidades em amontoados de escombros. Não tens princípios nem moral, os teus
fins são a destruição e a morte."
E deu-me um toque subtil no ombro direito, com o
dedo pontiagudo e frio, bafejando‑me com um sopro gélido e mau.
E eu, reconvertido e iniciado, senti o poder
mágico percorrer-me o corpo com um arrepio empolgante e dominador.
Depois de todo o sofrimento por que passei e
adquirida a nova qualidade de acordo com as normas do ritual, uma ideia, no
entanto, se sobrepunha a todas as
outras: - usar os grandes poderes ora conferidos para suavizar o mal dos meus
amigos, indiferentes aos riscos dos seus
corações adormecidos pela rotina e em colisão destruidora.
Fazer o mal? Destruir tudo? A obra humana e a da
natureza?
Mas a minha verdadeira vocação continuava a
apontar para cânticos generosos,
prenunciadores de novas eras em que fosse possível reviver, com
suavidade e amor, o tempo bom e os poemas que cada vida já havia cantado.
Para onde apontasse os dedos, agora armas
mortíferas, apenas resultariam a desolação e o caos?
Não. Decerto o rito iniciático não fora totalmente
conseguido, a parte boa da minha
energia conseguira resistir à dose de malevolência que pretenderam instilar-me.
Mas captara a força gigantesca e hercúlea, logo me apercebendo da sua
polivalência: - e se destruísse o mal em vez de afectar o bem?
Estendi os braços paralelos, reuni todas as
energias, as que já possuía e as recém‑adquiridas, apontei os dedos, tal punhais, ao peito do Grão‑Mestre
e disparei todos os raios galácticos que consegui concentrar.
O tronco do Mestre desfez-se em estilhas, decerto
a surpresa não lhe permitiu armar as defesas magnéticas, e os seus acólitos,
por arrastamento, começaram a tombar como se a coluna e as pernas lhes tivessem
faltado ou enfraquecido de repente.
Missão cumprida! - Era o eco que vibrava dentro de
mim.
Fiquei só, à entrada da gruta, impante de vitória,
banhado pelos raios de luar quase verticais.
E autoproclamei‑me Cavaleiro da Brisa, da brisa suave e apaziguadora, a bem da
Natureza e do Homem.
Assim continuarei a percorrer os caminhos do Mundo, especialmente ao fim da tarde e ao nascer do sol, com calma e ternura, não vão apagar‑se, com a brisa que ora sou, as flamas de amor, nascente e bruxuleante, que brotam de tantas almas em consagração de primaveras floridas e promessa de futuro para todos os seres humanos.